Design de Jogos


A importância do videogame arte – parte I
março 12, 2008, 10:26 pm
Filed under: Estudos | Tags: , ,

Este texto é uma compilação da minha palestra de mesmo nome ministrada na Universidade Veiga de Almeida no dia 28 de fevereiro de 2008 durante o lançamento do meu livro.  É uma discussão baseada em boa parte dos textos que não foram colocados no livro, e apresentam um complemento, expansão e introdução à ele.

Videogames são arte

Qual a validez desta afirmação? Seriam realmente os videogames, ou simplesmente games, arte?

Claro que simplesmente afirmar é mais fácil do que entender essa afirmativa. Muitas coisas são arte, convivemos com estas coisas no nosso dia-a-dia, talvez vivamos numa época onde estas coisas de arte habitam nosso mundo de forma tão clara e direta que ela chega a se tornar banal, perdendo sua essência. Talvez por isso seja ao mesmo tempo tão fácil afirmar “isso é arte” quanto é se perder no verdadeiro significado de arte. 

Encontramos a arte em capas de revista e embalagens no supermercado, nas praças e prédios do centro das cidades, nas roupas e adereços das pessoas a nossa volta, na chaleira, na geladeira, na televisão, no cinema, nos pôsteres e nos livros, em texto e projeto, a arte permeia nosso mundo moderno. Somos constantemente bombardeados com imagens, sons, formas e sensações. Se a arte é o resultado do trabalho do ser humano sobre o mundo, vivemos e respiramos arte, e portanto, nos acostumamos a ela. No ápice da produção artística que vivemos hoje, ela se tornou tão banal que não nos relacionamos com ela de maneira adequada, como uma criança que possui brinquedos demais ficamos mimados e não damos a cada um deles seu devido valor.

Para vivenciar a arte hoje, seria preciso que algo nos acorde desse transe anti-artístico que é a vida moderna, algo capaz de nos chamar a atenção e se relacionar diretamente conosco em um nível íntimo, que apenas a verdadeira arte é capaz.

A “verdadeira” arte

Festa da Arte

Existe mesmo uma “verdadeira arte”, seria ela mais “correta” do que o restante das atividades humanas e deveria ser cultuada? O ex-jornalista de games a atual produtor da EA Jim Preston em um artigo para o site “gamasutra” chamado “The Art Party” (A festa da arte) explica o que este pensamento pode resultar. Preston sugere a seguinte cena: Em um badalado clube no centro da cidade acontece a “Festa da Arte” e todas as pessoas importantes estão lá. George Clooney está bebendo com Oscar Wilde, Chopin e Allen Ginsber estão jogando sinuca e Picasso está dando em cima de Emly Dickson. É o máximo! Esta é a “Festa da Arte”, onde as verdadeiras obras de arte são devidamente reconhecidas e cultuadas. Para entrar no clube, você precisa passar pelos seguranças: Os críticos de arte, os museus, as galerias e as ferramentas de mídia, todos devem ao mesmo tempo reconhecer você como uma forma de Arte, e isso não é tarefa fácil. Tanto que, do lado de fora, sentados na calçada estão o grafite, os quadrinhos e os videogames, todos tentando convencer os seguranças e entrar no tão estimado clube e fazer parte da “festa”, finalmente recebendo o merecido reconhecimento de arte verdadeira..

O que ninguém percebe, no entanto, é que não são apenas estas formas de arte “inferiores” que ficam de fora do clube. Grande parte do público e da população ficam de fora também! As pessoas passam pela calçada, algumas olham pelas janelas e vêem a festa acontecendo, mas são tímidas demais para entrar, e ficam de fora da “Festa da Arte”, para sempre alienadas da forma “verdadeira” da arte…

E é ali, na calçada mesmo, que os quadrinhos, o grafite, o break e os videogames entram em contato com seu maior público. No fim do dia a casa das pessoas tem mais formas de arte “inferior” do que arte “verdadeira”. Qual a proporção entre o número de quadros e games na sua casa?

 A verdade da arte

É preciso perceber que entrar na “festa a arte” e ficar ao lado de Picasso não é mais necessário, porque “festa” em si não é mais o lugar adequado para a arte, suas mesas de bilhar já estão desalinhadas e as máquinas de chopp não gelam mais as doses de arte como antigamente: O clube onde ela acontece precisa urgentemente de uma reforma. A arte é uma atividade mutante, ninguém desceu de um a montanha com tábulas de pedra onde haviam lapidadas as grandes sete artes: Música, Dança, Pintura, Escultura, Literatura, Teatro e o Cinema. Tanto é que já são consideradas a oitava e nona arte a Fotografia e os Quadrinhos, respectivamente. Ao analisarmos a maneira com que a arte evolui e assimila novas mídias podemos ver como é importante a reforma no clube. O cinema, por exemplo, veio após a fotografia, então porquê ela é a oitava arte, ficando após a tecnologia que evoluiu de sua técnica? Mais importante para a nossa discussão, qual seria a verdade da arte aplicada aos videogames?

Vale a pena citar um grande designer de jogos, Peter Molyneux, em entrevista ao site Gameindustry.biz, quando questionado sobre a questão dos videogames serem ou não uma forma de arte, quando respondeu:

“Claro que são. Porque você diria que não são? Eu sou bastante generalista quanto a esta questão, pois é uma questão filosófica. Antes de realmente respondê-la, você deve definir o que é arte para você. Se arte é descrita como algo que promove uma reação em você e lhe permite vislumbrar algo que é mais que a realidade – então sim, claro que eles são uma forma de arte”.

Como sabiamente respondeu Molyneux, esta é uma questão filosófica. De um jeito ou de outro, quando vamos falar sobre arte, temos que definir o que é arte. Uma definição bastante simples de o que é arte podemos encontrar no magnífico livro de Scott McCloud, “Desvendando os Quadrinhos”, ele diz: “Arte, para mim, é qualquer atividade humana que não se desenvolve a partir dos dois instintos básicos da espécie humana: sobrevivência e reprodução”. Para explicar melhor, MacCloud nos dá um exemplo de um homem pré-histórico que está caçando uma mulher pré-histórica. Ele tem uma única coisa em mente: reprodução. Esse instinto é tão forte que governa todos os seus movimentos de forma que nenhum passo é desperdiçado na busca de sua meta. A mulher, temendo por sua sobrevivência, no entanto, consegue se esconder. O homem pré-histórico, privado de sua meta, tem um momento de indecisão, mas antes que possa fazer qualquer coisa, é atacado por um tigre! Agora todos os seus pensamentos e ações se consentram no outro instinto humano vital: sobrevivência! Ele corre do tigre e novamente seu instinto governa todos os seus movimentos e pensamentos. quando chega à beira de um penhasco, sua mente só pode conceber um caminho para a sobrevivência e ele o pega! Agarrando-se num galho de uma árvore, ele desvia-se do tigre que despenca penhaco abaixo. O homem pré-histórico sobrevive!

O seu próximo passo deve ser procurar comida (sobrevivência) ou talvez outra mulher (reprodução), mas ao invés disso, ele olha para trás, na direção do penhasco e do tigre rolando barranco abaixo, e faz uma bela careta! Isso é pura arte!

Careta

Claro que ao longo do tempo e da história as atividades humanas evoluem e se complicam. Para atender aos instintos básicos, precisamos fazer mais do que correr e saltar, e ao mesmo passo as atividades artísticas vão se tornando sistematizadas ao ponto que se torna institucionalizada. Suas raízes e motivações ainda estão intimamente ligadas à careta feita por nosso amigo pré-histórico. Seja quando ouvimos música no MP3 player a caminho do trabalho, seja preparando um prato especial com uma receita nova no fim de semana ou mesmo nas formas mais tradicionais, como ao irmos no cinema, no teatro, ou visitarmos um museu.

Mesmo com a arte banalizada que é bombardeada sobre nós a cada momento, ainda sentimos a arte nestas atividades e nos relacionamos de maneira diferente com elas. Quando vamos ao cinema, ou visitamos um museu, nos colocamos em um estado emocional apto para absorver aquelas obras. Sendo assim, a arte muda, pois não se justifica apenas por sua configuração única como no ato de sua concepção, ela depende que estejamos ativamente buscando-a. A arte depende do contexto, explicando o canônico exemplo do mictório de Duchamp.

Mictório

Contexto

E qual o melhor contexto para a fruirmos a arte que os videogames? Quando chegamos em casa e ligamos nossos consoles, estamos dispostos a vivenciar a arte, mesmo que não saibamos ou nunca tenhamos olhado por este ângulo, é verdade.

Para entender esta disposição para a fruição artística, devemos entender o que é videogame, e como ele se configura. Videogame seria um objeto, um programa? Qual a definição dos videogames? Esta discução não é nova, e muitos termos e definições bastante precisos já foram criados, mas ainda assim nos referimos à esta coisa como videogames. Ainda assim, vale a pena analisar e tentar chegar a uma definição para essa “coisa”.

Começando pelo nome que damos a esta coisa, videogames, o primeiro passo é passar para a nossa língua:

JOGOS EM VIDEO

Esta seria uma tradução literal do termo, porém quando você assiste o jogo da final do brasileirão na sua TV, este também é um jogo em vídeo, certo? A diferença entre assistir uma partida de futebol na TV e jogar um videogame é a interatividade. Os videogames são interativos. Portanto:

JOGOS INTERATIVOS EM VÍDEO

Isso ainda deixa muita coisa de fora, e é nosso objetivo sermos específicos. O que significa “em Vídeo?” Este termo não explica muito bem o que é necessário para jogar um videogame, afinal, só o vídeo, a TV ou monitor, não resume o aparato usado nos videogames. O termo videogame comporta uma grande gama de produtos, dos consoles domésticos, jogos para computador, e portáteis aos arcades ou fliperamas, até mesmo os celulares já podem ser entendidos como videogames. Todos eles dependem de uma mesma tecnologia, os chips e processadores e memórias que podemos chamar coletivamente de uma plataforma, uma plataforma eletrônica:

JOGOS INTERATIVOS EM PLATAFORMA ELETRÔNICA

Apesar deste termo incluir todas as formas de videogame conhecidas, ele vai um pouco além de nosso objetivo ao incluir, por exemplo, o jogo Gênius (Simon nos EUA) que é um jogo interativo em plataforma eletrônica, mas não é considerado um videogame. Isso aconteceu quando simplesmente excluímos o termo “vídeo”. Os videogames nasceram e se unificam através do método que usam para comunicar-se com os jogadores, o vídeo. Vídeo porém, não é mais adequado pois refere-se à displays CRT, e videogames como o game-boy e muitos jogos de celulares usam telas de cristal líquido. Se mega-drive (sega genesis nos EUA) fosse ligado em uma TV de LCD ele deixa de ser um videogame? Um termo mais genérico é mais adequado, como interface visual:

JOGOS INTERATIVOS DE INTERFACE VISUAL EM PLATAFORMA ELETRÔNICA

Novamente devemos expandir esta definição, pois ainda estão de fora o trabalho de sonoplastas, músicos e dubladores cujos trabalhos fazem parte intrínseca dos videogames. O termo Audio-visual, no entanto, não é suficiente para descrever todos os aparatos que já existem atualmente nas mãos dos jogadores. O advento do nintendo Wii e do Sixaxis do Playstation 3, dos controles especiais em forma de instrumentos musicais até as novas formas de interação do nintendo DS popularizaram novas maneiras diferentes de jogar. Não apenas o controle, mas a maneira dos jogos exibirem suas informações apontam para algo além do simples audio-visual,  veja a vibração inserida no Rumble pack dos controles de N64 e o force feedback de manches e volantes espaciais. Desta forma, podemos expandir o conceito para:

JOGOS INTERATIVOS DE INTERFACE AUDIO-VISUAL E CINÉTICA EM PLATAFORMA ELETRÔNICA

A palavra Jogo também não é adequada para nosso objetivo. Jogo também pode representar um bilhete de loteria (“Venho fazendo este mesmo jogo à dez anos!”) ou a uma série de coisas que juntas configuram um todo (“Um belo jogo de facas!”). A definição mais correta para a palavra Jogo no contexto dos videogames seria de uma atividade lúdica. Esta definição nos cai bem pois Lúdico é referente a brinquedos, divertimentos, passatempos:

ATIVIDADE LÚDICA INTERATIVA DE INTERFACE AUDIO/VISUAL/CINÉTICA EM PLATAFORMA ELETRÔNICA

Agora sim, temos uma boa definição dos videogames. Mas pode-se ir mais além. Claro que os videogames apresentam uma atividade, mas são mais do que isso. Uma atividade é algo não necessariamente significativo, não contém nenhum significado além da própria atividade. Respirar é uma atividade, fechar uma caixa é uma atividade, e são meramente meios pelos quais se obtém um resultado. Podem fazer parte de um objetivo maior, mas não se sustentam por si só. Jogar um videogame possui um significado, embora não seja intrínseco àos games, uma narrativa elaborada, enredo, personagens e imagens que instigam nossa mente e dão a esta atividade um significado. O visual de um jogo, os gráficos, fazem grande parte da nossa percepção e contemplação. A música e os efeitos sonoros, a maneira como eles são apresentados e evocam nossas emoções. Qual palavra que usualmente usamos para descrever uma “atividade” que pode conter narrativa, enredo e personagens, nos permite contemplar nossa própria condição humana, evocar sentimentos e pensamentos por sua música, estética, rítmo, forma e conteúdo? 

Videogames. m. – Arte lúdica interativa por
meio de uma interface audio-visual-cinética
contido em plataforma eletrônica.

Certamente não é o tipo de coisa que surge num papo casual, mas o importante é perceber que por essa análise inserimos os videogames em um quadro maior. Se retirarmos a parte sobre plataforma eletrônica, por exêmplo, assimilamos todos os jogos de tabuleiro da história. Se tiramos a parte que diz respeito à ludicidade e interatividade, temos uma descrição que pode comportar o cinema e a televisão. O quadro em que inserimos os games, portanto, é o grande quadro infinito das artes.

Segunda parte

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2 Comentários so far
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Para quem assistiu a palestra, ao vivo e a cores, fica mais difícil vibrar com o texto aqui postado, mas o assunto, que nunca me havia passado pela cabeça, me atraiu e me encantou, pela forma com que foi colocado, pela descoberta, realmente, de alguns valores que jamais teria atribuído aos videogames se não fosse a palestra. Parabéns!

Comentário por Denise

Excelente ponto de vista. Nunca li algo que fosse capaz de abordar videogames como arte de uma forma tão específica. Parabéns.

Comentário por João Tamar




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